Assim que abriu os olhos, percebeu que não conseguia se mexer.
O quarto permanecia mergulhado em escuridão, uma única fresta de luar escapando das cortinas perto dos seus pés. Sua mente conseguia completar os contornos dos elementos mesmo sem iluminação, como aquele violão pendurado ao lado da porta…
Juntou o dinheiro das tarefas de casa por três meses para conseguir comprá-lo, sequer se lembrava da última vez que havia tocado. O sonho de ter uma banda acabou morrendo quando estourou uma das cordas em alguns dias por usar um pedaço de madeira-não-lixado-o-suficiente; podia jurar que ainda tinha uma farpa perdida no indicador que doía toda vez que se masturbava.
Não conseguia controlar seus membros tensos, sequer parecia estar respirando de tão pouco ar que conseguia puxar… Precisava se distrair até que passasse.
Seu olhar passou do violão para os pôsteres – Nirvana; Pat Smear; John Lennon; George Harrison e Linkin Park –, depois para a mesa – o computador de LED estava fora da tomada porque sua mãe acreditava fielmente que poderia explodir se as luzes ficassem piscando de noite –, voltou até a porta com a toalha pendurada na maçaneta – e de quem foi a ideia idiota de pendurar o violão em cima do interruptor?!
Já tinha perdido as contas de quantas vezes bateu o ombro no instrumento entrando no quarto e se assustou com o barulho das cordas desafinadas e a madeira batendo na parede seguido da sua mãe gritando ao fundo: QUEEEEEEEBRA!
Como se fosse ela quem pagou – meio que foi… –, francamente, mulher.
Tentou mais uma vez mexer as mãos, agora que sentia a ponta dos dedos dormentes, ainda sem resposta.
Não era a primeira vez que passava por um episódio desse, cada minuto uma eternidade palpável. O segredo é relaxar, deixar seu corpo acompanhar sua mente, por isso sondava apenas do violão até a cortina.
Seu armário tinha duas portas de espelho, refletindo a luz que entrava pela janela e criando reflexos difusos de iluminação pelo teto com estrelas que brilhavam no escuro de quando era criança nos anos 2000.
Leu em algum lugar, durante a febre das creepypastas, que os espelhos eram capazes de aprisionar almas e refletir espíritos demoníacos que olhos insensíveis eram incapazes de enxergar. Durante anos, evitou ficar em frente aos espelhos durante a noite, quando criaturas do outro lado do véu se sentiam mais confortáveis para vagar sem a barulheira dos vivos.
O psiquiatra havia garantido talvez umas dezoito vezes que não haviam demônios do sono, preferia acreditar nisso. Dezoito… contagem, isso, contar ajuda a relaxar. Um…
Droga, por que é tão difícil respirar?
O ar noturno estava pesado, sufocante e parecia imóvel, como se todo o ambiente estivesse esperando… pelo quê? Não, não é hora de imaginar porquês. Relaxar. Números. Não olha pro armário. Um violão com cinco cordas; cinco pôsteres de banda; o teclado tem… vinte e seis letras do alfabeto, um enter, dois shift, dois control…
Um vulto.
Não. Demônios do sono não são reais, é preciso relaxar, o espelho na porta do armário só reflete a cama, as cortinas, meus pés…
Estavam cobertos? Não me lembro. E se puxarem? Porra, quantos anos você tem?
Pensando nos pés, conseguiu mexer o dedão. Isso! Descongelado, agora se espalharia pelo resto do corpo e o pesadelo acabaria.
A sombra crescendo atrás da cortina iria desaparecer.
É só minha mente, é só minha mente, eu vou acordar, eu vou beber um copo de água e vou dormir de novo, amanhã tenho prova de história. Em que ano aconteceu o Domingo Sangrento mesmo? Que desagradável pensar isso agora…
Que horas são?
Um baque na parede e o som de cordas desafinadas…
Prendendo a respiração, tudo para, até mesmo as batidas desenfreadas do coração não fazem som algum. Meus sentidos estão atordoados com um zumbido agudo, como se as notas inesperadas atingissem como um raio, energia formigando pela superfície da pele. Tensão e paralisia outra vez.
Minha porta não se abriu. O violão não se mexeu. Mas a toalha está caída no chão.
Com os olhos presos no tecido úmido, corra… Pelo canto direito da visão, uma sombra passa pelo espelho na porta do armário, tortuosamente devagar, agora do lado de dentro… Como era possível discernir um corpo na escuridão, agora que o luar havia sido engolido?
Demônios do sono. NÃO. Existem.
É um pesadelo.
Um peso maior repousa sobre o peito, que não sobe para receber o ar que condensa nas vias nasais, o sangue parece mais grosso enquanto luta para atravessar as veias. Aperte os olhos com força, não olhe.
Não é mais possível fugir.
Talvez aquilo não tenha percebido…
É só sua mente… não há nada respirando em seu rosto, balançando a franja que roça seu nariz em uma agonia insuportável para espirrar… o cheiro de carne podre com um fundo doce do ferro sanguíneo é uma ilusão… a pele gelada em volta dos seus tornozelos nus é só o vento que entra pela janela fechada que não era mais visível no vazio…
Não olhe… Talvez vá embora… É só sua mente.
Via claramente o reflexo no espelho, o monstro esquelético em cima do seu corpo impotente, havia aberto os olhos? Era sua imaginação completando a imagem atrás das pálpebras?
Faz alguma diferença? É só sua mente, afinal… não é?
Não era.
Aquilo sabia que não estava dormindo.
Mariana Torres foi encontrada morta em seu quarto devido um AVC sem antecedentes.
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