4 de outubro
inesperado, feliz, rebote reflexivo
A forma com que eu gosto das pessoas é uma sentença?
Quantos casos não tenho de amigos que gostaram de mim de um jeito que não sei retribuir. Eu nunca me apaixonei. E não sei se é exatamente esse bloqueio emocional que me dá a liberdade de abraçar as pessoas com o rosto no pescoço sem nenhuma intenção. Talvez isso mexa com os outros. Talvez eu seja uma armadilha emocional. Talvez eu faça um interesse, um ponto de paixão acontecer, sem nunca pretender entregar algo além disso. Eu dou sinais confusos? Ter conversas desconfortáveis sobre não estar afim assim e ter relacionamentos platônicos ou que se afastam por causa disso é um tipo de sina? Eu consigo evitar? (Eu não quero deixar de ser quem sou...)
Pode ser muito egocêntrico, mas olhando por esse lado, só penso em sereias. Intocáveis, sedutoras, mortais. Eu sou uma ilusão no meio do mar?
Lembro quando me chamaram de mar. Fiquei feliz. Gosto de ser lua, sol, tempestade. Qualquer metáfora com a natureza me traz honra genuína. O que é mais poético do que ser vista como uma força cósmica?
No fundo, ainda sinto o mesmo equívoco dos doze. Quando minhas amigas falavam de namorar, casar, eu simplesmente nunca acreditei que eu fosse a pessoa pra isso. Talvez seja um complexo de não me sentir digna de amor. Mas digo, eu gosto de quem eu sou, com a maioria dos defeitos, e me esforço pra ser uma boa amiga. Amizades são pilares na minha vida, sempre foi. Talvez eu só seja intrinsecamente sozinha ao ponto de não ver um mundo em que não seja assim.
Foi em um lapso de interesse e um grupo de amigos pontilhado de casais se formando que tomei uma decisão impulsiva. Foi no meio da adrenalina de mudanças, medo do compromisso e total descrença que alguém poderia gostar de mim em voz alta que cai no buraco de maior arrependimento da minha vida. Eu não soube sair, pulei na própria rede, outro impulso, outro lapso de interesse. Mas quando esse passou, eu não soube sair. Dois anos definhando, aos poucos deixando de existir, de fazer qualquer coisa que eu gostava, sem nenhum grupo de apoio que poderia me trazer de volta, aceitando que me dissessem que era melhor eu estar morta, evitando o assunto em terapia por saber que não tinha nenhuma força para lutar contra isso. Dois anos sem ar, sem vida. Logo depois de parar de querer morrer. Irônico, no mínimo.
Um conto de quem não acreditava que podia ser amada. Peixe se fisga pela boca, pela falta. Quando a oportunidade chegou, quando não podia ser encurralada (obrigada só por essa, suspeita de covid) e o ponto final veio. Eu dormi sem nenhuma lágrima, eu acordei como se nunca tivesse acontecido, feliz de novo. Seriam marcas de sanguessuga em y que me deixaram ainda mais descrente em relacionamentos?
A ideia de dividir a vida com alguém é sufocante, impossível, distante, irreal. Escrevo romances, amo ver casais, histórias de amor, não sou do tipo que comenta “vidas solteiras importam” ou fica triste em ver pessoas se amando aos berros. Às vezes até sinto um vacilo, uma vontade ínfima que logo passa. Não é pra mim. Nunca foi. O erro de cair em um impulso desesperado pensando que podia ser ainda influencia no quanto eu peço desculpas e me sinto pequena. É irônico que as armas usadas no abuso fosse justamente o pedestal e o elogio. Desconfio. Não acredito quando falam verdades boas de mim. Acho que fico mais confortável onde não se importam.
É bom não passar meu desaniversário sozinha, ainda mais depois de terem me tirado o chão e sequer passar o recado. “Comunicação é sempre bom”, penso de volta no sermão que recebi irritantemente. É bom não ter passado o dia sozinha, mas agora rasteja sob a pele memórias de carinho que receio se tornarem além do que posso entregar.
Minha família sempre trabalhou muito, mas ficamos distantes por um bom tempo. Eu sempre tive um abismo de idade e distância com primos e irmãos. O que eu sempre tive foram amigos — quer dizer, nem sempre —, mas no fundo eu sempre estive só por mim. Eu penso em velórios e alguém que vai ter um sentimento próximo do seu, um irmão, um primo que cresceu perto, alguém que ainda vai ficar quando o tempo for arrancando as pessoas daqui. Eu não tenho e nunca vou ter alguém nesse lugar, porque é aqui onde eu acho que o sangue é mais denso que qualquer laço.
Não me sinto mal em pensar que jamais vou namorar de novo ou esse conceito velho de morrer sozinha (solteira), qualquer coisa do gênero. Mas fico sentida em pensar que provavelmente todos a minha volta chegarão nesse lugar, e eu posso acabar ficando pra trás. Aquela coisa idiota de casais saem com casais. Onde eu fico? O que me resta se não as amizades que cultivo como amores, como primos?
Não ligo pra beijos, pra sexo, pra filhos. Gosto de trocar cafuné, dormir agarrada como se fosse um bicho de pelúcia, gosto de não ter angústias de um compromisso, gosto de ter lares em peitos de coração agitado. Espero não ser uma cabeluda de cauda de peixe por isso. Ao menos não uma do tipo que os piratas contavam sobre.
Estou bem. Escrever tais demônios é reconhecimento do que eu nunca tive coragem de falar. Bom estar mais corajosa. Bom entregar e receber afeto, mesmo que o trauma ainda esteja aqui. Bom me entregar um pouco, negando o medo de ficar sozinha outra vez.
Bom estar aqui. Bom amar. Mesmo que não seja nos moldes de um filme. É meu jeitinho. Gosto dele. Gosto de ser uma garota feliz com a própria companhia que sequer almeja ter alguém pra dividi-la. Mas aprecio a companhia.
Espero não ferir ninguém.




Você não precisa seguir o que a sociedade quer ser não faz sentido pra ti. Sempre vai ter um outro solteiro ou um casal que quer te adotar como amiga também. Vai ficar tudo bem ❤️🩹